segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A dificuldade de [não] ser monocromático

Um texto sobre pluralidade, multicores e The Four Seasons

Tem gente quem tem uma película protetora tão grande sobre si que é impedida de conhecer outras coisas. E nós sabemos que nesse mundão globalizado coisa para se relacionar é o que não falta.

Conhecer materiais que já são aprazíveis aos nosso gosto é ótimo, mas fugir de vez em quando dessa bolha é melhor ainda. Isso faz com que saiamos do círculo cultural que estamos inseridos e nos tornemos mais conhecedores e nos coloquemos numa posição de alteridade para com outros grupos culturais. Alteridade, pra quem não sabe, é o estado de compreensão do que é distinto, diferente. Além de tudo isso, você, vira e mexe acaba encontrando coisas sensacionais e demais de engraçadas.  Há um mês assistimos a um filme do Clint Eastwood chamado Jersey Boys, cujo roteiro baseia-se na história da de umas das bandas de mais sucesso dos anos 60: The Four Seasons. Frankie Valli, o vocalista do quarteto, tem uma voz extremamente peculiar, com notas tão agudas que nos lembram as de uma mulher.

Bem, não preciso dizer que depois do filme, veio a trilha sonora tomar conta dos nossos dias. Tá, o estilo é meio over, mas foi isso que fez com que nos divertíssemos com a coisa toda.  Exemplifico: segunda-feira de manhã, sono, preguiça, mau humor. Entra no carro. Liga o som. Começa Sherry. Sheeeeerry, sherry baby, sheeeerry, Sherry can you come out tonight? Canta junto: “sheeeery, sherry baby”…  Chegou. Ah, chegou. Sai do carro. “Bom trabalho, beijo”! (“Pronto, tô preparada pra segunda”).

Há quem diga que a pluralidade é uma questão de democracia. Eu digo mais, digo que é até uma questão de contentamento.

Ah, essa também é boa: Big Girls Don't Cry.
E essa é a queridinha da carreira do Frankie Valli : Can't Take My Eyes off You.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Um texto sobre mortos



"É um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver."

Faz dois anos que essa frase entrou na minha vida e, depois dela, nunca mais fui a mesma.

Entendi o Nobel dado a Saramago e "Ensaio sobre a cegueira" se tornou meu triste livro de cabeceira.

A frase dos mortos me faz lembrar sobre esse tempo nefasto de eleições. Era para ser bom, é mudança, é limpeza no congresso. Para mim, infelizmente, é de estranheza total.

Principalmente quando as posturas partidárias são da mais absurda intolerância, prepotência e distanciamento de serhumanidade (obrigada, Gregório). Fala-se em educação, mas não se fala em professores. Fala-se em saúde, mas não se fala em solução. Fala-se sobre tudo e sobre nada. Mas nos últimos dias o que já era grave se tornou insuportável. A "minoria" LGBT sendo ofendida, negada e desapoiada pelos presidenciáveis. Os que tocam no assunto, ofendem e mentem. Os que não tocam, desprotegem e compactuam.

Dirão muitos que a vida não tem nada a ver com minoria LGBT - é só olhar pro reaça ao seu lado para constatar. Os mais interessados se contorcem ao abrir o jornal e todos os dias se depararem com notícias de estupro, espancamento e outras agressões a pessoas que só gostariam de levar a vida de acordo com o que são.

Sobre direito das mulheres, esse é um assunto que parece nunca ter saída. O aborto continua o tópico 666 da pauta de nossos queridos candidatos. Eles sabem que também compactuam com a morte de milhares delas que tentam se livrar de uma gravidez indesejada. Acham que o estado manda no corpo de cada uma de nós. O machismo enraizado nos partidos e nos candidatos, um explícito espelho da população, não mente quando mostra a quantidade de agressões pelas quais passamos todos os dias.

Sei que a candidata Luciana Genro (PSOL) vem fazendo um trabalho em cima de todas essas questões, o que dá 1% de alívio aos nossos coraçõezinhos serhumanizados. Só que ainda é muito pouco perto do que esperamos. É muito pouco uma só candidata preocupada. É muito menos do que merecemos.

Com o fim das eleições, no próximo domingo, esses assuntos tão preocupantes serão esquecidos. Estaremos aliviados. E a morte, não somente em corpos mortos, permanecerá presente nas calçadas dos nossos dias.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Blues de Tereza

Tereza pensava em
Beatles
sorvetes
all stars
videoclipes
e filmes franceses.
Mas mesmo com tanto assunto
não deixava de pensar
no Gabriel da classe
que a chamava de Tereza-vareta-perna-e-bunda-seca.

um dia, Tereza
bebeu vodka com os meninos
e beijou de língua o Tavinho, que não te chamava de nada.

Tereza não amou o Tavinho
e mesmo sabendo cantar while my guitar gently weeps,
continuou pensando em Gabriel
que, depois da festa, nunca mais a chamou de Tereza-vareta-perna-e-bunda-seca.




quinta-feira, 29 de maio de 2014

Felicidade são bolhas efêmeras de sabão por entre meus dedos.
Tristeza é um pedaço do inexistente ancorado numa superfície indiferente.

 *

Mariana entrou no quarto para apagar a luz. Percebeu que entre chuvas e ventos o que estava ali agora era quase um pedaço de floresta malcuidada. Teve pena da árvore, que provavelmente teria perdido muitas folhas. Talvez estivessem fracas demais para aguentar os ventos outonais e a partida foi uma boa escolha. Forte escolha.
Pegou a vassoura para limpar o chão, meio terrento, e varreu-as uma por uma, pondo-as cuidadosamente dentro de um saquinho de lixo. Após esse trabalho minucioso, descarregou o saco no jardim da casa.
Voltou para o quintal, mesmo depois de ter pegado novamente o livro que estava lendo. O mesmo livro, o mesmo livro, mesmíssimo livro, mesmo livro há um mês.
Voltou para dentro, abriu a torneira com a água gelada e lavou os cabelos. Secou a cabeça toda e penteou os fios. Colocou o moletom cinza, já fino pela idade e típico dos sábados frios.
Voltou a sentar no sofá. Da onde estava observava agora o vaso de vidro cheio de folhas que havia providenciado minutos antes, ainda um pouco úmidas da chuva.
Como uma árvore grande, erudita, permaneceu ali.  Olhos novamente para o vaso.
Quebrou seus galhos e deixou as folhas irem.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Sobre tempo e suicídio

a menina se equilibrava no ponteiro do relógio
fincava o saltinho sapateiro no ponteiro
passeou pelas horas e estudou o tempo
andou ligeiro às 11 e lentamente às 15
contou segundo por segundo
e argumentou com as horas
a menina se equilibrava no ponteiro do relógio


morreu de tédio


quarta-feira, 9 de abril de 2014


sobre pensar que estive ao redor das coisas
e me perdi diante da matéria
levei meus braços duros para o infinito
e de pensar, hesitante,
meu cérebro pulsou
e conduziu os infortúnios para a caminhada

pensei em rodas
em torneios
em brigas
em devaneios

e continuo delineando
procurando meus meios
tentando me desembaraçar

se é de natureza,
permaneço com os braços estendidos
olhos abertos
perguntas em voga
estrofes no papel

terça-feira, 11 de março de 2014

O oco faltando um espaço?
Sempre foi oco o que faltava.
Não há o que preencher. Nessas horas, vemos que infinito é só o tempo. Mesquinho, grave, corroendo o tronco.
Nessas horas, a amargura foge pra lá, e só o que toma conta é a perda. Muito maior que qualquer coisa. O irremediável, o irreparável, o velho, o novo, a perda.
Nessas horas...

Que horas, afinal?

Sempre as póstumas.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sinestesia

O cheiro e vapor quente do café atravessaram a pele velha do rosto dela. As lágrimas estavam secas, só restavam os resquícios de sal. Ainda estava tentado entender a morte da melhor amiga. Foi um fim sem graça, espontâneo, quase indolor.
Não conseguiu tomar o café porque estava amargo e assim não cabia no estômago. Com um gole de água, tomou o remédio diário. A água doce fê-la sentir ânsia.
Entre os dedos e com uma faca quase cega, brigou contra a casca da única laranja da fruteira. Talvez o suco tirasse aquele gosto de fel da boca – mas os gomos estavam secos, quase sem sumo.
Voltou a se deitar. E quase como em uma pequena guerra, brigou com o lençol, que parecia não se conciliar com seu corpo. Derrotada, levantou-se.
Foi até o quintal e regou as plantas. Aproveitou para lavar o rosto na mangueira.  Queria deixar a água secar espontaneamente sobre o rosto, mas o líquido feria sua pele. Secou-se no vestido de malha.
O ambiente ainda era desconhecido. Sentia como se um vento passasse sobre seu peito.
Sentou na beirada da cama e uma pequena sensação, que não poderia chamar felicidade, tomou o seu pensamento: “tenho sorte”.
Penteou os cabelos e mudou de roupa. Alguém logo viria para levá-la ao velório.
Terminando de colocar o último grampo no cabelo, ouviu o barulho de carro.

Ali, na casa agora vazia, tudo estava impecável, exceto pelo vestido velho em cima da cama.

Não havia barulho, nem cheiro, apenas um rastro de medo da morte.

domingo, 26 de janeiro de 2014

be a good woman:

get married

have children
stay home
don’t fuck
be quiet
straighten your long hair
buy discrete clothes
shave your sex
don’t look
don’t think
don’t be.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

porque pertencia a um corpo que não era seu
porque tinha que esconder seu próprio sexo de si
porque que o pó era seu único companheiro
porque os amores eram sempre inacabados
porque o sexo era por dinheiro
porque o preconceito era cruel
porque padecia tantas vezes de desprezo e vergonha
porque não entendia essas dores infindas
porque sofria
sangrava
morria