terça-feira, 24 de março de 2015

A guerra dos meninos




Rio de Janeiro 
 Foto: Paula Simas


Transcrevo aqui trechos de “a guerra dos meninos”, de Gilberto Dimenstein – um livro sobre grupos de extermínio que assassinam crianças.

A interpretação é livre!


“Imagino ser natural que a experiência desta reportagem provoque abalos dos mais intensos nos radares emocionais do que as repetitivas entrevistas com ministros, deputados, senadores, burocratas, empresários, economistas. São mundos, entretanto, ligados – não se pode separar o menos desolado e agredido do burocrata ou ministro, que sustentam favores, traficam influências ou cultivam a incompetência – os descalabros reproduzem e solidificam o subdesenvolvimento...”

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“A pouco menos dali, outro menino estava sentado, cabeça entre os braços, febril, corpo mole, vestido com um short e uma camiseta rasgada. Foi-lhe perguntando o que tinha. Ele respondeu secamente:
- Estou com febre.
- Você está gripado?
- Não. Tomei um tiro na perna. A bala ainda está dentro – informou, mostrando a perna ferida.
- Por que você não vai ao hospital?
- Tenho medo que no hospital a polícia me pegue”.

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“Quando começou a cuidar de meninas prostituas em Recife, a psicóloga Ana Vasconcelos ficou intrigada ao ouvir uma expressão desconhecida empregada como sinônimo de aborto. De fato, é uma palavra estranha: “pezada”. Ela acompanhava a descontraída conversa entre duas meninas. Uma delas contou que há dias tinha feito um aborto e, enfim, estava livre da gravidez que lhe tirava clientes na rua:
- Como tirou: - quis saber a menina que ouvia o relato.
- Foi com pezada – respondeu.
Ana se aproximou, curiosa. E perguntou:
- O que é pezada?
A psicóloga ficou estarrecida com a explicação. “Pezada” era levar um chute forte na barriga. Era um meio, segundo a menina, fácil e certeiro de se fazer um aborto. E ainda por cima, mais barato . Não necessitava de médico ou parteira. Bastava a ajuda de alguém que se dispusesse a dar a “pezada”, o que não era difícil”.

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“O educador Carlos Bezerra acredita que muitos desses policiais são simplesmente desequilibrados – precisariam de um tratamento psiquiátrico, tamanha sua agressividade, revelando um desvio de sadismo. Um caso em especial, dentre tantos, impressionou Carlos. Havia um menino de rua chamado Anderson, que era retardado mental e perambulava pela Cinelândia, no Rio. Mas todas as noites os policiais molestavam Anderson, davam-lhe chutes, rasteiras, beliscões. Jogavam cola em seu cabelo. Isso foi durante meses e meses – bastava o menino ver um policial para sair correndo aos berros”.

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“No Rio, surgiram os “anjos da guarda”, figuras assimiladas e mesmo elogiadas pelos banhistas. Esses “anjos”, todos de classe média e lutadores de artes marciais, formam um pequeno exército uniformizado que tem como meta fazer justiça com as próprias mãos. Eles saem correndo atrás dos “pivetes” e, na força, entregam-nos à polícia. Torna-se comum, como era de se esperar, uma coleção de casos de arbitrariedade dos “anjos da guarda”.
Como os “anjos da guarda”, não produzem espanto na classe média carioca os “arrastões”. Neles, porém, está embutido um não-formalizado apartheid, já que um determinado tipo de pessoas não pode frequentar um determinado tipo de lugar público. Num desses arratões , em janeiro de 1989, foram levadas para a Delegacia de Menores 23 crianças. Mas só foram encontradas depois 9 delas. Nunca mais se soube do destino das outras.
- Eu só queria saber como o país reagiria se tivessem sumido 14 médicos. Ou 14 policiais ou 14 jornalistas. Será que quando o indivíduo é jornalista ele vale mais? Tortura em menino pobre dói menos do que em corpo de preso político intelectualizado? – pergunta Maria Tereza Moura”.

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“Márcia se lembra de que uma noite estava num restaurante. Um garoto entrou e aproveitou que o dono estava distraído no balcão. Abriu a assadora de frango, dessas em que o espeto fica girando, apelidada de “televisão de pobre”. Tirou rapidamente um frango do espeto e saiu correndo. Lá estava um policial que ficou agitado. O dono ainda tentou contemporizar e, segundo Márcia, disse:
- Deixe esse desgraçado em paz. Ele está com fome.
Mas o dono não se fez ouvir. O policial saiu correndo em disparada, mas o menino, com o frango na mão, era mais rápido. Estava acostumado a correr. Quando o menino ia ganhando uma folgada dianteira, ele sacou o revólver e acertou sua perna. Atingiu o alvo, mas a vítima ainda conseguiu, capengando, fugir. Mais alguns passos e o frango estava capturado. Ele devolveu-o ao dono como se segurasse um troféu, ostentando um sorriso de satisfação".

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“Não foi apenas nesse depoimento contido no dossiê da Pastoral que meninos revelaram serem forçados a comer fezes ou baratas. Há indicações de que se trata de um comportamento usual na polícia de Duque de Caxias. Muitos desses meninos, entretanto, se confundem – nem sempre quem os agarra ou lhes bate na rua é da polícia. São também os seguranças de lojas ou empresas. Pela cumplicidade ou pelo fato de que muitos seguranças particulares são ou foram policiais, a confusão é inevitável.”

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"- Quem mata por dinheiro, mata qualquer um. Tanto pode matar um marginal ou suspeito de ser marginal, como um jornalista, um deputado, um líder sindical ou um bispo – acredita o bispo Dom Mauro Morelli, que sentiu na própria carne até onde vai a ousadia dos exterminadores".

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domingo, 22 de março de 2015

o passarinho no fio
o cachorro correndo
o pedaço de chocolate
a música no fone
a mensagem no celular
o livro novo
o livro velho
a roupa cheirosa
o abraço da mãe
o filme bonito
a piada do amigo
o saco de amendoim
o copo de coca-cola
o hiato do cotidiano
e os pedacinhos de nossa vida