Há semanas
fui a uma feira de livros usados e lá estavam sendo vendidas inúmeras coleções
enciclopédicas. Alguns leitores, mais ousados, compraram alguns volumes, mas a
maioria destes acabou voltando para o estoque. A verdade é que ninguém quer ter
um monte de livros gigantescos dentro de casa se há o Google como ferramenta de
pesquisa. É inegável que a internet é maravilhosa, mas me pergunto até que
ponto o conhecimento que buscamos está nas redes online e se temos realmente
consciência de que nem tudo que lemos se torna de fato conhecimento.
Estou
estudando tarô, tenho um fascínio e uma curiosidade quase infantil por aquelas
cartas. Na dita feira, achei um livro parte de uma coleção sobre o assunto. Fiquei
embasbacada com o cuidado com que esse livro foi fabricado: os desenhos, a
explicação de cada lâmina, a história do baralho e a comparação com as inúmeras
versões são realmente de uma superioridade enorme ao que a Wikipédia ou
qualquer site de pesquisa poderiam me dar. O tempo que se gastava com tal
pesquisa e o cuidado com as informações postas nesse tipo de trabalho com
certeza eram outros. Quando escrevi minha tese na graduação, senti uma
dificuldade enorme para encontrar boas fontes para enriquecer meu texto. A
internet era fraca no assunto, e os livros, quase erradicados, acabaram me
salvando de não ter que mudar o tema.
A
respeito de tudo isso, é claro pensar que muitas vezes as dúvidas não podem ser
completamente sanadas pela rede. Aquele vocábulo ou pessoa que você procurou na
Wikipédia e leu sobre o assunto pode não ter se tornado conhecimento. Isso
porque somente aquela informação é insuficiente, ou porque você não assimilou
totalmente da maneira ideal – ou talvez pelas duas coisas. Na maior parte das
vezes, estamos somente captando informações, e o conhecimento está longe de ser
isso. Ter conhecimento sobre algo é conseguir efetuar comparações, estabelecer
conexões com experiências vividas, comparar a ideia principal daquilo com outra
ideia similar ou oposta. Conhecimento não é apropriação de ideias.
Conhecimento é uma atividade intelectual, um exercício árduo de
pensamento e reflexão. Até acontece de, quando não estamos preparados para o
recebimento de algum tipo de conhecimento, simplesmente não conseguimos
compreender o que estudamos naquele momento. Depois de um tempo, temos um insight, e não é mágica e nem atividade
espiritual, é só nosso cérebro dizendo que amadureceu e finalmente conseguiu
aprender.
E o
conhecimento da humanidade, para onde vai? Existe uma teoria, criada por Bergson e
revisitada por Borges, que se chama “cone universal da memória”. Esse cone
contém toda a memória da humanidade. Borges utilizou esse cone para falar sobre
a atribuição indevida de autoria, pois várias das coisas que escrevemos são resultado
de um compêndio de algo que lemos. De vez em quando, um esperto ou outro estica
a mão no cone e pega aquela ideia bastante antiga*. Entretanto, a utilização do
cone da memória está cada vez mais superficial, ou seja, pegamos conceitos que
estão no comecinho do cone – conceitos esses que achamos facilmente no Google.
As referências são rasas, as ideias e o conhecimento também.
Até
que ponto queremos ser uma ficha catalográfica de assuntos? Ou o ponto é ter
conhecimento pra realmente fazermos diferença na nossa própria vida? Não sei a
resposta. Deixo a reflexão para você.
*lembrando
que pegar ideia de alguém e não dar crédito é plágio.
Referência: https://www.youtube.com/watch?v=kaMLJ9tCzV8.
Acessado em 16/11.
