segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre conhecimento, informação e o cone da memória



Há semanas fui a uma feira de livros usados e lá estavam sendo vendidas inúmeras coleções enciclopédicas. Alguns leitores, mais ousados, compraram alguns volumes, mas a maioria destes acabou voltando para o estoque. A verdade é que ninguém quer ter um monte de livros gigantescos dentro de casa se há o Google como ferramenta de pesquisa. É inegável que a internet é maravilhosa, mas me pergunto até que ponto o conhecimento que buscamos está nas redes online e se temos realmente consciência de que nem tudo que lemos se torna de fato conhecimento.
Estou estudando tarô, tenho um fascínio e uma curiosidade quase infantil por aquelas cartas. Na dita feira, achei um livro parte de uma coleção sobre o assunto. Fiquei embasbacada com o cuidado com que esse livro foi fabricado: os desenhos, a explicação de cada lâmina, a história do baralho e a comparação com as inúmeras versões são realmente de uma superioridade enorme ao que a Wikipédia ou qualquer site de pesquisa poderiam me dar. O tempo que se gastava com tal pesquisa e o cuidado com as informações postas nesse tipo de trabalho com certeza eram outros. Quando escrevi minha tese na graduação, senti uma dificuldade enorme para encontrar boas fontes para enriquecer meu texto. A internet era fraca no assunto, e os livros, quase erradicados, acabaram me salvando de não ter que mudar o tema.  
A respeito de tudo isso, é claro pensar que muitas vezes as dúvidas não podem ser completamente sanadas pela rede. Aquele vocábulo ou pessoa que você procurou na Wikipédia e leu sobre o assunto pode não ter se tornado conhecimento. Isso porque somente aquela informação é insuficiente, ou porque você não assimilou totalmente da maneira ideal – ou talvez pelas duas coisas. Na maior parte das vezes, estamos somente captando informações, e o conhecimento está longe de ser isso. Ter conhecimento sobre algo é conseguir efetuar comparações, estabelecer conexões com experiências vividas, comparar a ideia principal daquilo com outra ideia similar ou oposta. Conhecimento não é apropriação de ideias.  Conhecimento é uma atividade intelectual, um exercício árduo de pensamento e reflexão. Até acontece de, quando não estamos preparados para o recebimento de algum tipo de conhecimento, simplesmente não conseguimos compreender o que estudamos naquele momento. Depois de um tempo, temos um insight, e não é mágica e nem atividade espiritual, é só nosso cérebro dizendo que amadureceu e finalmente conseguiu aprender.
E o conhecimento da humanidade, para onde vai?  Existe uma teoria, criada por Bergson e revisitada por Borges, que se chama “cone universal da memória”. Esse cone contém toda a memória da humanidade. Borges utilizou esse cone para falar sobre a atribuição indevida de autoria, pois várias das coisas que escrevemos são resultado de um compêndio de algo que lemos. De vez em quando, um esperto ou outro estica a mão no cone e pega aquela ideia bastante antiga*. Entretanto, a utilização do cone da memória está cada vez mais superficial, ou seja, pegamos conceitos que estão no comecinho do cone – conceitos esses que achamos facilmente no Google. As referências são rasas, as ideias e o conhecimento também.
Até que ponto queremos ser uma ficha catalográfica de assuntos? Ou o ponto é ter conhecimento pra realmente fazermos diferença na nossa própria vida? Não sei a resposta. Deixo a reflexão para você.
*lembrando que pegar ideia de alguém e não dar crédito é plágio.

Referência: https://www.youtube.com/watch?v=kaMLJ9tCzV8. Acessado em 16/11.