"É um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver."
Faz dois anos que essa frase entrou na minha vida e, depois dela, nunca
mais fui a mesma.
Entendi o Nobel dado a Saramago e "Ensaio sobre a cegueira" se
tornou meu triste livro de cabeceira.
A frase dos mortos me faz lembrar
sobre esse tempo nefasto de eleições. Era para ser bom, é mudança, é limpeza no
congresso. Para mim, infelizmente, é de estranheza total.
Principalmente quando as posturas
partidárias são da mais absurda intolerância, prepotência e distanciamento de
serhumanidade (obrigada, Gregório). Fala-se em educação, mas não se fala em
professores. Fala-se em saúde, mas não se fala em solução. Fala-se sobre tudo e
sobre nada. Mas nos últimos dias o que já era grave se tornou insuportável. A
"minoria" LGBT sendo ofendida, negada e desapoiada pelos
presidenciáveis. Os que tocam no assunto, ofendem e mentem. Os que não tocam,
desprotegem e compactuam.
Dirão muitos que a vida não tem nada a ver com minoria LGBT - é só olhar
pro reaça ao seu lado para constatar. Os mais interessados se contorcem ao
abrir o jornal e todos os dias se depararem com notícias de estupro,
espancamento e outras agressões a pessoas que só gostariam de levar a vida de
acordo com o que são.
Sobre direito das mulheres, esse é um assunto que parece nunca ter
saída. O aborto continua o tópico 666 da pauta de nossos queridos candidatos.
Eles sabem que também compactuam com a morte de milhares delas que tentam se
livrar de uma gravidez indesejada. Acham que o estado manda no corpo de cada
uma de nós. O machismo enraizado nos partidos e nos candidatos, um explícito
espelho da população, não mente quando mostra a quantidade de agressões pelas
quais passamos todos os dias.
Sei que a candidata Luciana Genro (PSOL) vem fazendo um trabalho em cima
de todas essas questões, o que dá 1% de alívio aos nossos coraçõezinhos
serhumanizados. Só que ainda é muito pouco perto do que esperamos. É muito
pouco uma só candidata preocupada. É muito menos do que merecemos.
Com
o fim das eleições, no próximo domingo, esses assuntos tão preocupantes serão
esquecidos. Estaremos aliviados. E a morte, não somente em corpos mortos,
permanecerá presente nas calçadas dos nossos dias.