sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Preconceito linguístico e 2015

A primeira vez que comecei a realmente pensar sobre preconceito foi quando tive contato com um livro de Carlos Bagno, chamado “Preconceito Linguístico”.  O livro expõe um preconceito pouco tratado fora do contexto acadêmico, que é o da intolerância às variações linguísticas*. Bagno também traz em sua obra uma militância explícita acerca de como a língua portuguesa deve ser ensinada na escola, especialmente para aqueles que são subjugados pela forma como falam e que são desvalorizados culturalmente.
A partir daí me interessei pelo tema, e linguística**, muito mais que gramática, me pegou pelo coração. E a paixão ficou maior quando conheci um cara chamado Sírio Possenti, um dos grandes disseminadores dessa ciência no Brasil – outro militante defensor da valorização cultural perante as diversas línguas dentro do próprio português. Esse cara tem nos ensinado, com suas centenas de artigos e dezenas de livros, como devemos ensinar português para a grande camada brasileira. Ou melhor, como devemos ensinar português para as populações marginalizadas e que não tem nada a ver com esse português formal que os professores pasquales querem nos enfiar goela abaixo. Ele quer sim que professores ensinem a gramática normativa na escola, mas longe daquele paradigma elitista que este ensino na maioria das vezes abrange. O professor Sírio dá até as formas de como se fazer isso.
Além disso, Sírio me ensinou coisinhas que me cutucam feito piolho:
- Nem eu, nem você e nem ninguém fala o português cem por cento correto.
- A mídia, geralmente, dissemina e piora situações de injúria.
- A maioria das pessoas que incita preconceito não conhece história, português ou geografia (muitas vezes nem matemática).
- O preconceito é um dos males que mais prejudica o desenvolvimento de um país.
- O mundo é pequeno demais pra não entender as diferenças entre as pessoas.
Bom, toda essa enrolação é pra dizer que o assunto preconceito veio à tona em minha vida com a linguística, totalmente improvável.  Mas o importante de tudo isso, é que depois que você entende o mecanismo de construção e a desconstrução de um preconceito, você passa então a entender melhor todas as outras formas, e mesmo com pequenos atos, passa a eliminá-los.
E eu, como ser mesquinho que sou e sabendo que não é tarefa fácil, coloco toda essa eliminação como item primeiro da minha lista de realizações de 2015.
E como mantra, elimino o preconceito de gênero, o preconceito racial, o preconceito geográfico, o preconceito social, o preconceito religioso e todo e qualquer ele.


* São três variações linguísticas:
Diafásicas: o contexto definirá as variações de uso da língua formal ou não formal; diatópicas: variações ocorridas devido às diferenças regionais; diastráticas: variações ocorridas de acordo com o grupo social do qual se está inserido.

** A linguística estuda a língua como um todo e diante de todas as suas inúmeras relações. Já a gramática estuda os elementos de uma determinada língua, sem levar em conta, por exemplo, as variações linguísticas.