A
primeira vez que comecei a realmente pensar sobre preconceito foi quando tive
contato com um livro de Carlos Bagno, chamado “Preconceito Linguístico”. O livro expõe um preconceito pouco tratado
fora do contexto acadêmico, que é o da intolerância às variações linguísticas*.
Bagno também traz em sua obra uma militância explícita acerca de como a língua
portuguesa deve ser ensinada na escola, especialmente para aqueles que são
subjugados pela forma como falam e que são desvalorizados culturalmente.
A
partir daí me interessei pelo tema, e linguística**, muito mais que gramática,
me pegou pelo coração. E a paixão ficou maior quando conheci um cara chamado
Sírio Possenti, um dos grandes disseminadores dessa ciência no Brasil – outro
militante defensor da valorização cultural perante as diversas línguas dentro
do próprio português. Esse cara tem nos ensinado, com suas centenas de artigos
e dezenas de livros, como devemos ensinar português para a grande camada
brasileira. Ou melhor, como devemos ensinar português para as populações
marginalizadas e que não tem nada a ver com esse português formal que os professores
pasquales querem nos enfiar goela abaixo. Ele quer sim que professores ensinem
a gramática normativa na escola, mas longe daquele paradigma elitista que este
ensino na maioria das vezes abrange. O professor Sírio dá até as formas de como
se fazer isso.
Além
disso, Sírio me ensinou coisinhas que me cutucam feito piolho:
-
Nem eu, nem você e nem ninguém fala o português cem por cento correto.
-
A mídia, geralmente, dissemina e piora situações de injúria.
-
A maioria das pessoas que incita preconceito não conhece história, português ou
geografia (muitas vezes nem matemática).
-
O preconceito é um dos males que mais prejudica o desenvolvimento de um
país.
-
O mundo é pequeno demais pra não entender as diferenças entre as pessoas.
Bom,
toda essa enrolação é pra dizer que o assunto preconceito veio à tona em minha
vida com a linguística, totalmente improvável. Mas o importante de tudo isso, é que depois
que você entende o mecanismo de construção e a desconstrução de um preconceito,
você passa então a entender melhor todas as outras formas, e mesmo com pequenos
atos, passa a eliminá-los.
E
eu, como ser mesquinho que sou e sabendo que não é tarefa fácil, coloco toda
essa eliminação como item primeiro da minha lista de realizações de 2015.
E
como mantra, elimino o preconceito de gênero, o preconceito racial, o
preconceito geográfico, o preconceito social, o preconceito religioso e todo e
qualquer ele.
*
São três variações linguísticas:
Diafásicas:
o contexto definirá as variações de uso da língua formal ou não formal;
diatópicas: variações ocorridas devido às diferenças regionais; diastráticas:
variações ocorridas de acordo com o grupo social do qual se está inserido.
**
A linguística estuda a língua como um todo e diante de todas as suas inúmeras
relações. Já a gramática estuda os elementos de uma determinada língua, sem
levar em conta, por exemplo, as variações linguísticas.