Sinestesia
O cheiro e vapor quente do café atravessaram a pele velha
do rosto dela. As lágrimas estavam secas, só restavam os resquícios de sal. Ainda
estava tentado entender a morte da melhor amiga. Foi um fim sem graça,
espontâneo, quase indolor.
Não conseguiu tomar o café porque estava amargo e assim não
cabia no estômago. Com um gole de água, tomou o remédio diário. A água doce
fê-la sentir ânsia.
Entre os dedos e com uma faca quase cega, brigou contra a
casca da única laranja da fruteira. Talvez o suco tirasse aquele gosto de fel
da boca – mas os gomos estavam secos, quase sem sumo.
Voltou a se deitar. E quase como em uma pequena guerra,
brigou com o lençol, que parecia não se conciliar com seu corpo. Derrotada, levantou-se.
Foi até o quintal e regou as plantas. Aproveitou para
lavar o rosto na mangueira. Queria
deixar a água secar espontaneamente sobre o rosto, mas o líquido feria sua
pele. Secou-se no vestido de malha.
O ambiente ainda era desconhecido. Sentia como se um
vento passasse sobre seu peito.
Sentou na beirada da cama e uma pequena sensação, que não
poderia chamar felicidade, tomou o seu pensamento: “tenho sorte”.
Penteou os cabelos e mudou de roupa. Alguém logo viria
para levá-la ao velório.
Terminando de colocar o último grampo no cabelo, ouviu o
barulho de carro.
Ali, na casa agora vazia, tudo estava impecável, exceto
pelo vestido velho em cima da cama.
Não havia barulho, nem cheiro, apenas um rastro de medo
da morte.