terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sinestesia

O cheiro e vapor quente do café atravessaram a pele velha do rosto dela. As lágrimas estavam secas, só restavam os resquícios de sal. Ainda estava tentado entender a morte da melhor amiga. Foi um fim sem graça, espontâneo, quase indolor.
Não conseguiu tomar o café porque estava amargo e assim não cabia no estômago. Com um gole de água, tomou o remédio diário. A água doce fê-la sentir ânsia.
Entre os dedos e com uma faca quase cega, brigou contra a casca da única laranja da fruteira. Talvez o suco tirasse aquele gosto de fel da boca – mas os gomos estavam secos, quase sem sumo.
Voltou a se deitar. E quase como em uma pequena guerra, brigou com o lençol, que parecia não se conciliar com seu corpo. Derrotada, levantou-se.
Foi até o quintal e regou as plantas. Aproveitou para lavar o rosto na mangueira.  Queria deixar a água secar espontaneamente sobre o rosto, mas o líquido feria sua pele. Secou-se no vestido de malha.
O ambiente ainda era desconhecido. Sentia como se um vento passasse sobre seu peito.
Sentou na beirada da cama e uma pequena sensação, que não poderia chamar felicidade, tomou o seu pensamento: “tenho sorte”.
Penteou os cabelos e mudou de roupa. Alguém logo viria para levá-la ao velório.
Terminando de colocar o último grampo no cabelo, ouviu o barulho de carro.

Ali, na casa agora vazia, tudo estava impecável, exceto pelo vestido velho em cima da cama.

Não havia barulho, nem cheiro, apenas um rastro de medo da morte.