Rio de Janeiro
Foto: Paula Simas
Transcrevo aqui trechos de “a guerra dos meninos”, de
Gilberto Dimenstein – um livro sobre grupos de extermínio que assassinam
crianças.
A interpretação é livre!
“Imagino ser natural que a experiência desta reportagem
provoque abalos dos mais intensos nos radares emocionais do que as repetitivas
entrevistas com ministros, deputados, senadores, burocratas, empresários,
economistas. São mundos, entretanto, ligados – não se pode separar o menos
desolado e agredido do burocrata ou ministro, que sustentam favores, traficam
influências ou cultivam a incompetência – os descalabros reproduzem e
solidificam o subdesenvolvimento...”
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“A pouco menos dali, outro menino estava sentado, cabeça
entre os braços, febril, corpo mole, vestido com um short e uma camiseta
rasgada. Foi-lhe perguntando o que tinha. Ele respondeu secamente:
- Estou com febre.
- Você está gripado?
- Não. Tomei um tiro na perna. A bala ainda está dentro –
informou, mostrando a perna ferida.
- Por que você não vai ao hospital?
- Tenho medo que no hospital a polícia me pegue”.
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“Quando começou a cuidar de meninas prostituas em Recife, a
psicóloga Ana Vasconcelos ficou intrigada ao ouvir uma expressão desconhecida
empregada como sinônimo de aborto. De fato, é uma palavra estranha: “pezada”.
Ela acompanhava a descontraída conversa entre duas meninas. Uma delas contou
que há dias tinha feito um aborto e, enfim, estava livre da gravidez que lhe
tirava clientes na rua:
- Como tirou: - quis saber a menina que ouvia o relato.
- Foi com pezada – respondeu.
Ana se aproximou, curiosa. E perguntou:
- O que é pezada?
A psicóloga ficou estarrecida com a explicação. “Pezada” era
levar um chute forte na barriga. Era um meio, segundo a menina, fácil e
certeiro de se fazer um aborto. E ainda por cima, mais barato . Não necessitava
de médico ou parteira. Bastava a ajuda de alguém que se dispusesse a dar a
“pezada”, o que não era difícil”.
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“O educador Carlos Bezerra acredita que muitos desses
policiais são simplesmente desequilibrados – precisariam de um tratamento
psiquiátrico, tamanha sua agressividade, revelando um desvio de sadismo. Um
caso em especial, dentre tantos, impressionou Carlos. Havia um menino de rua
chamado Anderson, que era retardado mental e perambulava pela Cinelândia, no
Rio. Mas todas as noites os policiais molestavam Anderson, davam-lhe chutes,
rasteiras, beliscões. Jogavam cola em seu cabelo. Isso foi durante meses e
meses – bastava o menino ver um policial para sair correndo aos berros”.
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“No Rio, surgiram os “anjos da guarda”, figuras assimiladas
e mesmo elogiadas pelos banhistas. Esses “anjos”, todos de classe média e
lutadores de artes marciais, formam um pequeno exército uniformizado que tem
como meta fazer justiça com as próprias mãos. Eles saem correndo atrás dos “pivetes”
e, na força, entregam-nos à polícia. Torna-se comum, como era de se esperar,
uma coleção de casos de arbitrariedade dos “anjos da guarda”.
Como os “anjos da guarda”, não produzem espanto na classe
média carioca os “arrastões”. Neles, porém, está embutido um não-formalizado
apartheid, já que um determinado tipo de pessoas não pode frequentar um
determinado tipo de lugar público. Num desses arratões , em janeiro de 1989,
foram levadas para a Delegacia de Menores 23 crianças. Mas só foram encontradas
depois 9 delas. Nunca mais se soube do destino das outras.
- Eu só queria saber como o país reagiria se tivessem sumido
14 médicos. Ou 14 policiais ou 14 jornalistas. Será que quando o indivíduo é
jornalista ele vale mais? Tortura em menino pobre dói menos do que em corpo de
preso político intelectualizado? – pergunta Maria Tereza Moura”.
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“Márcia se lembra de que uma noite estava num restaurante.
Um garoto entrou e aproveitou que o dono estava distraído no balcão. Abriu a
assadora de frango, dessas em que o espeto fica girando, apelidada de “televisão
de pobre”. Tirou rapidamente um frango do espeto e saiu correndo. Lá estava um
policial que ficou agitado. O dono ainda tentou contemporizar e, segundo
Márcia, disse:
- Deixe esse desgraçado em paz. Ele está com fome.
Mas o dono não se fez ouvir. O policial saiu correndo em
disparada, mas o menino, com o frango na mão, era mais rápido. Estava
acostumado a correr. Quando o menino ia ganhando uma folgada dianteira, ele
sacou o revólver e acertou sua perna. Atingiu o alvo, mas a vítima ainda
conseguiu, capengando, fugir. Mais alguns passos e o frango estava capturado.
Ele devolveu-o ao dono como se segurasse um troféu, ostentando um sorriso de
satisfação".
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“Não foi apenas nesse depoimento contido no dossiê da
Pastoral que meninos revelaram serem forçados a comer fezes ou baratas. Há indicações
de que se trata de um comportamento usual na polícia de Duque de Caxias. Muitos
desses meninos, entretanto, se confundem – nem sempre quem os agarra ou lhes
bate na rua é da polícia. São também os seguranças de lojas ou empresas. Pela
cumplicidade ou pelo fato de que muitos seguranças particulares são ou foram
policiais, a confusão é inevitável.”
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"- Quem mata por dinheiro, mata qualquer um. Tanto pode matar
um marginal ou suspeito de ser marginal, como um jornalista, um deputado, um
líder sindical ou um bispo – acredita o bispo Dom Mauro Morelli, que sentiu na
própria carne até onde vai a ousadia dos exterminadores".
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