sábado, 9 de janeiro de 2016

File:Egon Schiele 094.jpg
                                                     German: Vier Bäume  - Schiele



Se você olhar a beleza de uma planta, uma perfeição mentirosa estará ali. Nas folhas, geralmente verdes, não se vê as cores primárias do fracasso quase vencedor de uma natureza bela, mas perdida.

Sonhei que estava afundada numa floresta azul de peixes com olhos mortos. Eu segurava sua mão e chorava para não soltá-la, enquanto os olhos de peixes mortos encostavam no meu corpo nu e gelado. Eu lutava contra os peixes e você observava de longe. Senti que tentava me puxar, mas não conseguia, a luta daqueles seres abissais era comigo. Não pude aguentar e soltei de sua mão. Os olhos dos peixes continuam mortos e agora eu. Meu corpo jaz sobre uma pedra fria, e de longe, posso vê-lo.
Quando acordei, lembrei desse sonho azul. Meu corpo tem marcas estranhas e restos de escamas. Minhas mãos estão doloridas e o meu sangue corre gelado. No sonho em que eu morri, há mais beleza na morte.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Seated Woman with Bent Knee - Egon Schiele
Seated woman with bent knee - Schiele 


um mundo nu escorregava pelos meus pés. 
os anos passados, e ele agora na minha cintura pende para algum lugar. 
eu li aquele livro e fumei o cigarro até o fim. 
ninguém espera ser carregado para a vida, nem eu, mas volta e meia corro para o passado pensando em ficar.
 vejo seus poucos fios brancos e não entendo a mecânica sentimental, que adormece e acorda como um bebê ressonando. 
continuo pensando naquele livro, ainda com cheiro de novo e páginas brancas,  parado e triste na minha prateleira.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Schiele


O sorriso meio baixo, meio alto, braço meio duro, meio solto. O coração sempre submerso. Os olhos não largam as lágrimas porque um olho poético é feito assim. O sentimento não está na pele, mas nas vísceras.  Não há riqueza na casa do poeta, e quando morrer, do corpo cheio de solidão no estômago não sobrará nem os dentes. Uma colcha de retalhos mal costurada de amores imperfeitos é a pele de um sofredor.
Na casa dele não tem campainha porque não há ninguém que possa entrar. Fazer de conta entre os outros é um trabalho já indolor, a vida de um poeta fingidor, que diria redundante, é sempre trágica, mas não triste.
O sentimento maior de mim é a melancolia, líquido corrente de um corpo cheio de poesia.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre conhecimento, informação e o cone da memória



Há semanas fui a uma feira de livros usados e lá estavam sendo vendidas inúmeras coleções enciclopédicas. Alguns leitores, mais ousados, compraram alguns volumes, mas a maioria destes acabou voltando para o estoque. A verdade é que ninguém quer ter um monte de livros gigantescos dentro de casa se há o Google como ferramenta de pesquisa. É inegável que a internet é maravilhosa, mas me pergunto até que ponto o conhecimento que buscamos está nas redes online e se temos realmente consciência de que nem tudo que lemos se torna de fato conhecimento.
Estou estudando tarô, tenho um fascínio e uma curiosidade quase infantil por aquelas cartas. Na dita feira, achei um livro parte de uma coleção sobre o assunto. Fiquei embasbacada com o cuidado com que esse livro foi fabricado: os desenhos, a explicação de cada lâmina, a história do baralho e a comparação com as inúmeras versões são realmente de uma superioridade enorme ao que a Wikipédia ou qualquer site de pesquisa poderiam me dar. O tempo que se gastava com tal pesquisa e o cuidado com as informações postas nesse tipo de trabalho com certeza eram outros. Quando escrevi minha tese na graduação, senti uma dificuldade enorme para encontrar boas fontes para enriquecer meu texto. A internet era fraca no assunto, e os livros, quase erradicados, acabaram me salvando de não ter que mudar o tema.  
A respeito de tudo isso, é claro pensar que muitas vezes as dúvidas não podem ser completamente sanadas pela rede. Aquele vocábulo ou pessoa que você procurou na Wikipédia e leu sobre o assunto pode não ter se tornado conhecimento. Isso porque somente aquela informação é insuficiente, ou porque você não assimilou totalmente da maneira ideal – ou talvez pelas duas coisas. Na maior parte das vezes, estamos somente captando informações, e o conhecimento está longe de ser isso. Ter conhecimento sobre algo é conseguir efetuar comparações, estabelecer conexões com experiências vividas, comparar a ideia principal daquilo com outra ideia similar ou oposta. Conhecimento não é apropriação de ideias.  Conhecimento é uma atividade intelectual, um exercício árduo de pensamento e reflexão. Até acontece de, quando não estamos preparados para o recebimento de algum tipo de conhecimento, simplesmente não conseguimos compreender o que estudamos naquele momento. Depois de um tempo, temos um insight, e não é mágica e nem atividade espiritual, é só nosso cérebro dizendo que amadureceu e finalmente conseguiu aprender.
E o conhecimento da humanidade, para onde vai?  Existe uma teoria, criada por Bergson e revisitada por Borges, que se chama “cone universal da memória”. Esse cone contém toda a memória da humanidade. Borges utilizou esse cone para falar sobre a atribuição indevida de autoria, pois várias das coisas que escrevemos são resultado de um compêndio de algo que lemos. De vez em quando, um esperto ou outro estica a mão no cone e pega aquela ideia bastante antiga*. Entretanto, a utilização do cone da memória está cada vez mais superficial, ou seja, pegamos conceitos que estão no comecinho do cone – conceitos esses que achamos facilmente no Google. As referências são rasas, as ideias e o conhecimento também.
Até que ponto queremos ser uma ficha catalográfica de assuntos? Ou o ponto é ter conhecimento pra realmente fazermos diferença na nossa própria vida? Não sei a resposta. Deixo a reflexão para você.
*lembrando que pegar ideia de alguém e não dar crédito é plágio.

Referência: https://www.youtube.com/watch?v=kaMLJ9tCzV8. Acessado em 16/11.

segunda-feira, 22 de junho de 2015


se eu soubesse que sobreviria
em meio a água funda
com criaturas moles e flácidas
em meio a escamas e tentáculos
eu iria
para o abstrato até o fim dos dias
fugiria para o lamacento azul
com monstros marinhos
e sonhos anis
no primitivo
eu juro, me afundaria
no pigmento azul eu me esconderia
 jamais apostaria
jamais voltaria
no cimento
dos meus dias

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Uma perspectiva de vida: a morte

Iván Ilitch, o personagem de A morte de Iván Ilitch, Tolstói, vê a chegada da morte de forma extremamente dolorosa. Percebe que os degraus que avançou para atingir um posto social cada vez maior fez de sua vida um palácio de superficialidade. Agora, estirado sobre a cama com a dor física e moral o estilhaçando, colhe sem escapatória sua semeadura.

“Veio-lhe à mente que o que lhe parecera sempre totalmente impossível, isto é, que ele vivera toda a sua vida não como deveria tê-la vivido, poderia ser verdade. Veio-lhe à mente que aqueles quase imperceptíveis impulsos que sentira para lutar contra o que era considerado bom por pessoas altamente situadas, impulsos quase imperceptíveis, e que ele, in continenti, afastava de si – que justamente esses impulsos podiam ter sido os verdadeiros, e tudo o mais poderia ter sido errado. Tanto o seu trabalho, e seu modo de vida, e sua família, e todos esses interesses da sociedade e do serviço – tudo isso podia ter sido um equívoco. Ele tentou defender tudo isso perante si mesmo. E, súbito, percebeu toda a fragilidade daquilo que defendia. E não havia nada para defender.” (TOLSTÓI, Leão – A morte de Iván Ilitch).

Sei que todos sabem que a morte vai chegar, uma hora ou outra, mas você tem pensado sobre ela? Se não, está na hora de começar. Não, não digo para que vire Álvares de Azevedo e cante ode à morte, e a ideia também não é a de endeusar a morbidez e instalá-la nos seus dias. O caso aqui é muito simples, coisa fácil para nossas cabeças vazias.

Essa forma de viver a vida como se não houvesse amanhã pode ser bonitinha na ficção (não nas obras de Tolstói), mas é uma imbecilidade sem tamanho. Pensar na morte de forma lúcida e racional é tão importante quanto pensar na vida. Talvez em algum ponto esses dois pontos até se convirjam. Quando se pensa sobre a própria morte, sente-se, inexoravelmente uma vontade enorme de correr para fazer coisas que não fizemos ou então que precisamos consertar. E é por esse devaneio que devemos passear.

Só viver, sem esse estalo de que a coisa vai acabar em algum momento, faz com que muitas vezes flutuemos pelas mediocridades do nosso espírito e de nossa sociedade. Deixamos de fazer coisas por acharmos que somos bons o suficiente – ou não – para aquilo que nos leva para o crescimento. Deixamos de refletir se realmente queremos aquilo que nos cobram.

A beleza de viver é, no fundo, morrer tranquilo, com aquilo que se achou justo consigo e com os outros, e que nos momentos em que agiu errado, pôde consertar, na medida do possível, os estragos de seus atos. Morrer, acima de tudo, sabendo que se fez aquilo que lhe era agradável e não que foi uma peça de xadrez de um jogo social.

É por isso que a morte, essa única e velha certeza, deve fazer parte da nossa vida. Quando ela chegar, já não terá tanta importância, pois o que ficará foi o que pensamos e fizemos antes.

“Estará ele melhor ou pior lá, onde acordou, depois desta morte verdadeira? Terá ficado desapontado ou encontrou aquilo que esperava? Todos nós o saberemos, em breve.” (TOLSTÓI, Leão – O senhor e o servo).





terça-feira, 24 de março de 2015

A guerra dos meninos




Rio de Janeiro 
 Foto: Paula Simas


Transcrevo aqui trechos de “a guerra dos meninos”, de Gilberto Dimenstein – um livro sobre grupos de extermínio que assassinam crianças.

A interpretação é livre!


“Imagino ser natural que a experiência desta reportagem provoque abalos dos mais intensos nos radares emocionais do que as repetitivas entrevistas com ministros, deputados, senadores, burocratas, empresários, economistas. São mundos, entretanto, ligados – não se pode separar o menos desolado e agredido do burocrata ou ministro, que sustentam favores, traficam influências ou cultivam a incompetência – os descalabros reproduzem e solidificam o subdesenvolvimento...”

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“A pouco menos dali, outro menino estava sentado, cabeça entre os braços, febril, corpo mole, vestido com um short e uma camiseta rasgada. Foi-lhe perguntando o que tinha. Ele respondeu secamente:
- Estou com febre.
- Você está gripado?
- Não. Tomei um tiro na perna. A bala ainda está dentro – informou, mostrando a perna ferida.
- Por que você não vai ao hospital?
- Tenho medo que no hospital a polícia me pegue”.

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“Quando começou a cuidar de meninas prostituas em Recife, a psicóloga Ana Vasconcelos ficou intrigada ao ouvir uma expressão desconhecida empregada como sinônimo de aborto. De fato, é uma palavra estranha: “pezada”. Ela acompanhava a descontraída conversa entre duas meninas. Uma delas contou que há dias tinha feito um aborto e, enfim, estava livre da gravidez que lhe tirava clientes na rua:
- Como tirou: - quis saber a menina que ouvia o relato.
- Foi com pezada – respondeu.
Ana se aproximou, curiosa. E perguntou:
- O que é pezada?
A psicóloga ficou estarrecida com a explicação. “Pezada” era levar um chute forte na barriga. Era um meio, segundo a menina, fácil e certeiro de se fazer um aborto. E ainda por cima, mais barato . Não necessitava de médico ou parteira. Bastava a ajuda de alguém que se dispusesse a dar a “pezada”, o que não era difícil”.

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“O educador Carlos Bezerra acredita que muitos desses policiais são simplesmente desequilibrados – precisariam de um tratamento psiquiátrico, tamanha sua agressividade, revelando um desvio de sadismo. Um caso em especial, dentre tantos, impressionou Carlos. Havia um menino de rua chamado Anderson, que era retardado mental e perambulava pela Cinelândia, no Rio. Mas todas as noites os policiais molestavam Anderson, davam-lhe chutes, rasteiras, beliscões. Jogavam cola em seu cabelo. Isso foi durante meses e meses – bastava o menino ver um policial para sair correndo aos berros”.

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“No Rio, surgiram os “anjos da guarda”, figuras assimiladas e mesmo elogiadas pelos banhistas. Esses “anjos”, todos de classe média e lutadores de artes marciais, formam um pequeno exército uniformizado que tem como meta fazer justiça com as próprias mãos. Eles saem correndo atrás dos “pivetes” e, na força, entregam-nos à polícia. Torna-se comum, como era de se esperar, uma coleção de casos de arbitrariedade dos “anjos da guarda”.
Como os “anjos da guarda”, não produzem espanto na classe média carioca os “arrastões”. Neles, porém, está embutido um não-formalizado apartheid, já que um determinado tipo de pessoas não pode frequentar um determinado tipo de lugar público. Num desses arratões , em janeiro de 1989, foram levadas para a Delegacia de Menores 23 crianças. Mas só foram encontradas depois 9 delas. Nunca mais se soube do destino das outras.
- Eu só queria saber como o país reagiria se tivessem sumido 14 médicos. Ou 14 policiais ou 14 jornalistas. Será que quando o indivíduo é jornalista ele vale mais? Tortura em menino pobre dói menos do que em corpo de preso político intelectualizado? – pergunta Maria Tereza Moura”.

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“Márcia se lembra de que uma noite estava num restaurante. Um garoto entrou e aproveitou que o dono estava distraído no balcão. Abriu a assadora de frango, dessas em que o espeto fica girando, apelidada de “televisão de pobre”. Tirou rapidamente um frango do espeto e saiu correndo. Lá estava um policial que ficou agitado. O dono ainda tentou contemporizar e, segundo Márcia, disse:
- Deixe esse desgraçado em paz. Ele está com fome.
Mas o dono não se fez ouvir. O policial saiu correndo em disparada, mas o menino, com o frango na mão, era mais rápido. Estava acostumado a correr. Quando o menino ia ganhando uma folgada dianteira, ele sacou o revólver e acertou sua perna. Atingiu o alvo, mas a vítima ainda conseguiu, capengando, fugir. Mais alguns passos e o frango estava capturado. Ele devolveu-o ao dono como se segurasse um troféu, ostentando um sorriso de satisfação".

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“Não foi apenas nesse depoimento contido no dossiê da Pastoral que meninos revelaram serem forçados a comer fezes ou baratas. Há indicações de que se trata de um comportamento usual na polícia de Duque de Caxias. Muitos desses meninos, entretanto, se confundem – nem sempre quem os agarra ou lhes bate na rua é da polícia. São também os seguranças de lojas ou empresas. Pela cumplicidade ou pelo fato de que muitos seguranças particulares são ou foram policiais, a confusão é inevitável.”

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"- Quem mata por dinheiro, mata qualquer um. Tanto pode matar um marginal ou suspeito de ser marginal, como um jornalista, um deputado, um líder sindical ou um bispo – acredita o bispo Dom Mauro Morelli, que sentiu na própria carne até onde vai a ousadia dos exterminadores".

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