terça-feira, 30 de setembro de 2014

Um texto sobre mortos



"É um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver."

Faz dois anos que essa frase entrou na minha vida e, depois dela, nunca mais fui a mesma.

Entendi o Nobel dado a Saramago e "Ensaio sobre a cegueira" se tornou meu triste livro de cabeceira.

A frase dos mortos me faz lembrar sobre esse tempo nefasto de eleições. Era para ser bom, é mudança, é limpeza no congresso. Para mim, infelizmente, é de estranheza total.

Principalmente quando as posturas partidárias são da mais absurda intolerância, prepotência e distanciamento de serhumanidade (obrigada, Gregório). Fala-se em educação, mas não se fala em professores. Fala-se em saúde, mas não se fala em solução. Fala-se sobre tudo e sobre nada. Mas nos últimos dias o que já era grave se tornou insuportável. A "minoria" LGBT sendo ofendida, negada e desapoiada pelos presidenciáveis. Os que tocam no assunto, ofendem e mentem. Os que não tocam, desprotegem e compactuam.

Dirão muitos que a vida não tem nada a ver com minoria LGBT - é só olhar pro reaça ao seu lado para constatar. Os mais interessados se contorcem ao abrir o jornal e todos os dias se depararem com notícias de estupro, espancamento e outras agressões a pessoas que só gostariam de levar a vida de acordo com o que são.

Sobre direito das mulheres, esse é um assunto que parece nunca ter saída. O aborto continua o tópico 666 da pauta de nossos queridos candidatos. Eles sabem que também compactuam com a morte de milhares delas que tentam se livrar de uma gravidez indesejada. Acham que o estado manda no corpo de cada uma de nós. O machismo enraizado nos partidos e nos candidatos, um explícito espelho da população, não mente quando mostra a quantidade de agressões pelas quais passamos todos os dias.

Sei que a candidata Luciana Genro (PSOL) vem fazendo um trabalho em cima de todas essas questões, o que dá 1% de alívio aos nossos coraçõezinhos serhumanizados. Só que ainda é muito pouco perto do que esperamos. É muito pouco uma só candidata preocupada. É muito menos do que merecemos.

Com o fim das eleições, no próximo domingo, esses assuntos tão preocupantes serão esquecidos. Estaremos aliviados. E a morte, não somente em corpos mortos, permanecerá presente nas calçadas dos nossos dias.

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