O corpo estava ali. Lívido, imóvel e caído como se
estivesse morto. Em um momento entendeu o motivo das lágrimas serem salgadas.
Lembrou-se do soco que deu no próprio estômago ao sentir
aquela pontada dolorida. Foi na noite passada, depois de tomar aquele conhaque
velho que há muito estava em cima da mesa.
Ela deu um soco no próprio estômago. Deu como
se tivesse dado em outra pessoa. Ela achou que não doeria, mas doeu. Foi uma
apontada aguda, seguida de uma gastrite.
Quando pensou no autosoco, sentiu vontade de rir: “que
criatura ridícula”. Mas aquilo ali passou logo. Pensou nos homens com
os quais dormiu, da sua mãe morta e do pai infeliz que ela não via há tanto
tempo.
Então se lembrou de momentos antes do soco. Da calcinha e
da camiseta velha que vestia. Do gosto do conhaque barato. Mesmo depois de
bêbada continuo tendo aquelas visões, aquelas tristezas sobre sua vida miserável.
Pensou em tirar a mangueirinha do fogão e inalar o gás. Mas ela estava bêbada. Aquilo tinha que ser feito com consciência.
Pensou em tirar a mangueirinha do fogão e inalar o gás. Mas ela estava bêbada. Aquilo tinha que ser feito com consciência.
Quis acordar. Tinha que acordar, se livrar daquele monte de erros. Teve pena de
si, e pela pena teve ódio. E se deu um soco. Não se lembrava do exato momento em que decidiu. Só sabia que depois permanecera
no chão durante muito tempo. E ali ainda estava. As lágrimas já tinham secado e
sua boca estava entreaberta, como da forma que caíra. Arrependeu-se do soco.
Não sabia como levantar. Ninguém estava ali para ajudar.
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